PANDEMIA

Se tem uma profissão que se beneficiou do isolamento social, são os entregadores. Com muita gente em casa, as compras virtuais e delivery explodiram, mas será que isso é algo positivo? Vamos começar pelo ponto mais simples, a economia. Afinal, é algo lógico. 1+1=2. Mais pedidos, mais entregas, mais dinheiro no bolso e menos horas ocioso aguardando uma nova entrega, que, consequentemente, impacta no volume de horas diárias trabalhando. Mas, de novo, isso muito simples. Uma profissão que obriga a ter contato direto com diversas pessoas não é o melhor dos cenários em uma pandemia. Além disso, eles não só tem contato com pessoas, mas também com espaços possivelmente contaminados.

Por último e não menos importante, tem a questão social. Ninguém é entregador por escolha, é uma necessidade. Apesar de, particularmente, não gostar da palavra, o entregador é um subemprego. É uma alternativa para quando as saídas são limitadas, que reflete bem o cenário  atual. Segundo o portal Exame, no iFood, o número de entregadores passou de 147 mil para 170 mil de fevereiro para março. Com a demora do auxílio emergencial, cortes de empregos e salários, muitos viram na entrega uma alternativa para “impulsionar” a renda (se é que podemos chamar de impulsionar se arriscar para colocar comida na mesa de casa). Só enquanto escrevia esta última frase, vi pela janela 5 entregadores passando pela avenida ao lado de casa. Bicicletas, motos e, por incrível que pareça, até mesmo patinete. É domingo a tarde, faz sol em São Paulo, e estes homens e mulheres estão ali, trabalhando pra cima e pra baixo, dividindo espaço entre ônibus para levar uma encomenda do ponto A ao ponto B.

Mesmo sendo tão importante, eles são quase invisíveis. Fazem parte da paisagem urbana para muitos. Eles são o serviço essencial que devemos respeitar, mas que muitos preferem ignorar. Segundo a VEJA São Paulo, o brasileiro parece ter entendido parte da questão. “No Uber Eats, o aumento no valor total das quantias doadas foi de 170% se comparados os primeiros quinze dias de março com a última quinzena do mês — um acréscimo de R$ 475. 000,00 no país todo.” Mas ainda existe uma longa estrada a ser percorrida.

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Um mês atrás, em 17 de abril, entregadores da cidade de São Paulo fizeram uma manifestação na avenida Paulista. Segundo o UOL Notícias, “eles reclamam que antes havia promoções que aumentavam o valor do frete, porém agora não há mais esse bônus”, ao portal, o iFood declarou que “não houve alteração da política de remuneração.” Mas quem trabalha com tecnologia entende a questão. Quando há excesso de demanda, o aplicativo faz promoções para que o entregador continue na rua. Com o aumento de entregadores, não é necessário fazer promoções ou bônus; a demanda é alta, mas a mão de obra disponível também. No mesmo período, a Justiça do Trabalho de São Paulo determinou que a Uber Eats adotasse novas medidas de proteção aos entregadores.

Mas não sejamos injustos com os aplicativos. Em nota para o UOL Notícias, a empresa afirma que “distribui álcool gel, máscaras e toma cuidado para não gerar aglomerações.” Não sei se era álcool gel, mas por vários dias um carro ficava parado aqui na avenida, servindo como um — ao que tudo indicava — posto avançado de apoio para entregadores. Além disso, o iFood anunciou diversos fundos de apoio solidário a entregadores que integram o grupo de risco e doentes. O problema é que existem dois pontos importantes: 1. Não é tarefa da empresa ser solidária. Por mais que isso seja bem visto pelo cliente, não é uma obrigação. 2. A demanda por apoio é muito maior do que as empresas podem suportar sem ter impacto direto. É uma questão delicada.

Para deixar o cenário ainda mais complexo, entre vários trabalhadores honestos, acabam se infiltrando criminosos. No fim de abril, o Procon-SP encaminhou um ofício ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania solicitando a instauração de um inquérito policial contra iFood e Rappi, tendo como objetivo averiguar as responsabilidades penais das empresas em relação aos crimes cometidos por “entregadores”. Segundo o Procon-SP, alguns criminosos têm aplicado golpes, como cobranças indevidas no ato e após as entregas.

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Segundo o site Exame, “em sua resposta, as empresas envolvidas alegam que não se responsabilizam por eventuais crimes praticados por seus funcionários, destacando que seria dever do consumidor se atentar à inexigibilidade de cobrança adicional para entrega do produto. Embora as empresas aleguem que os entregadores são profissionais independentes que prestam o serviço de entrega sem qualquer vínculo jurídico-trabalhista, o Artigo 34 do Código de Defesa do Consumidor estabelece a responsabilidade solidária do fornecedor pelos atos de seus intermediários ou representantes autônomos. Portanto, nesse caso a empresa seria corresponsável pelo ressarcimento dos valores cobrados de forma fraudulenta.”

Na outra ponta, o comércio que precisa resistir e a importância dos entregadores

Expostos ao vírus e vital para segurar o isolamento social, os entregadores também são um elo importante na relação comércio e consumidor. Sem eles, não só comércio de alimentação está lutando contra a pandemia, mas o comércio como um todo. A Rappi incluiu recentemente categorias como vestuário e eletrônicos em seu leque de entregas. Já o iFood agora permite pedir não só comida, como itens de supermercado. No vídeo abaixo, o site InfoMoney entrevistou o Sérgio Saraiva, CEO da Rappi no Brasil sobre os super apps e as entregas no período da pandemia.

Ao site UOL Economia, o vice-presidente financeiro e de estratégia do iFood, Diego Barreto, afirmou que o anunciou, ainda em abril, “uma redução em média de 20% das comissões cobradas pelo iFood para mais de 130 mil restaurantes dispersos em 100% dos estados brasileiros.” Uma iniciativa que faz com que os estabelecimentos sejam incentivados a usar o aplicativo, mantendo as entregas, principalmente em municípios com restrições de movimentação.

Voltando aos entregadores, como falamos anteriormente neste texto, estes profissionais deixaram de ser um “luxo do dia a dia”, para tornarem-se elementos essenciais para o comércio. São eles que permitem idosos receberem compras em casa, quando não há familiares e amigos para ajudarem nas compras. São eles que evitam que mais pessoas saíam na rua, mas possibilitam que o comércio se mantenha vendendo. São pais e mães, irmãos, tios e sobrinhos que estão se arriscando para colocar comida na mesa de casa e evitando que você saia da sua. Então, a próxima vez que pedir um delivery para o jantar, a compra do mercado ou qualquer outra compra, não esqueça de — pelo menos — agradecer ao entregador e, é claro, uma gorjeta nunca será demais.

Imagem Destaque: Nelson Antoine/Shutterstock

[Atualização]: O iFood anunciou hoje o lançamento do movimento “Todos à Mesa”, que reúne empresas como a Coca-Cola em uma iniciativa para ampliar a rede de apoio a entregadores, restaurantes e a população vulnerável do Brasil durante a pandemia do coronavírus. Leia mais neste link.

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