MEIO AMBIENTE

Escolas fechadas, voos cancelados e rodízio de carros. Esse é o atual cenário de Nova Délhi, na Índia, uma das cidades mais poluídas do planeta e que viu, no último sábado (02), atingir recordes preocupantes na qualidade do ar. Segundo dados do próprio governo indiano, o pico de poluição registrado na cidade atingiu mais de 30 vezes o limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A capital indiana se transformou em “uma câmara de gás”, afirmou o ministro-chefe de Délhi, Arvind Kejriwal, pelo Twitter.

Dados do Escritório Central de Controle de Poluição (CPCB) da Índia mostram que, no centro da cidade, a concentração de partículas PM 2.5 (material particulado que inclui poluentes como sulfato, nitratos e carbono negro, que representam os maiores riscos para a saúde humana) era de 672 μg/m³ de ar, às 7h (hora local), enquanto a concentração de partículas de PM 10 era de 735. A OMS recomenda que as cidades reduzam os valores médios anuais para, no máximo, 20 μg/m³ (para PM10) e 10 μg/m³ (para PM2.5).

O ar da região está tão tóxico, que o governo restringiu todas as construções na cidade e em mais dois estados vizinhos. Além disso, em um formato já conhecido por algumas cidades brasileiras, o governo indiano adotou o rodízio de carros. Entre esta segunda-feira (04) e o dia 15 de novembro, os carros só poderão circular na cidade em datas ímpares ou pares, dependendo do número das placas.

Infelizmente Nova Délhi não está sozinha. Anteriormente, em abril deste ano, falamos sobre Ulã Bator, a cidade da Mongólia que é considerada a cidade mais fria e mais poluída do planeta (quando levado em conta a poluição por habitante, já que Ulã Bator tem 800 mil habitantes e, na Índia, só em Nova Délhi são mais de 22 milhões).

Nós poluímos 100 vezes mais que todos os vulcões

Quando falo que Nova Délhi não está sozinha, ela não está acompanhada apenas de Ulã Bator. Segundo um estudo recente, as emissões anuais de CO2 produzidas pela humanidade através da queima de combustíveis fósseis e florestas e afins., são de 40 a 100 vezes maiores que todas as emissões vulcânicas. Vou tentar ilustrar o cenário.

Você se lembra da erupção do vulcão Eyjafjallajökull, na Islândia, em março de 2010, que lançou uma enorme coluna de fumaça, parando boa parte do tráfego aéreo do norte da Europa e sendo visível até do espaço? Pois bem, essa erupção não está nem entre as 10 maiores da história. Já o Monte Merapi, na Indonésia, é um dos vulcões mais ativos do mundo e, ainda em 2010, forçou a evacuação de mais de 280 mil pessoas da região. Esses dois gigantes fazem parte dos mais de 1.500 vulcões ativos em todo o mundo.

Voltando ao estudo citado acima, juntos eles emitem anualmente cerca de 0.3 gigatoneladas de CO2. Apenas uma pequena fração dos 37 gigatoneladas emitidas pela humanidade em 2018, contrariando perspectivas anteriores que colocavam os vulcões como grandes contribuidores pelas emissões globais.

Ainda para efeito de comparação, calcula-se que o asteroide Chicxulub, responsável pela extinção dos dinossauros, tenha lançado de 425 a 1.400 gigatoneladas de CO2 na atmosfera. Segundo Marie Edmonds, professora de vulcanologia e petrologia do Queens‘ College, da Universidade de Cambridge, “a quantidade de CO2 bombeada para a atmosfera por atividades artificiais nos últimos 10 a 12 anos (é equivalente) à mudança catastrófica (impacto do Chicxulub) que vimos no passado.”

Infelizmente, levará muito tempo para a Terra nivelar o dióxido de carbono na atmosfera. “Ela se reequilibrará, mas não em uma escala de tempo que seja significativa para os seres humanos”, afirma Celina Suarez, professora de geologia da Universidade do Arkansas, nos EUA.

Correndo atrás do prejuízo: Um exemplo na Suécia

A queima de combustível fóssil é um dos grandes vilões deste cenário todo. Com a urbanização cada vez maior, é comum colocar no débito dos automóveis o prejuízo das emissões de CO2. Carros elétricos, novos modais e soluções inovadoras tentam, a todo custo, reduzir as emissões do transporte terreste. Em Gotemburgo, a segunda maior cidade da Suécia e com pouco mais de 570 mil habitantes, vem testando uma alternativa para incentivar seus moradores a deixarem o carro de lado e optarem por transportes públicos.

Desde 2010, a agência de transporte regional tem oferecido um passe gratuito de duas semanas (que permite usar ônibus, balsas e bondes), para aqueles moradores que optarem por deixar o carro na garagem. Com campanhas periódicas – em redes sociais e outdoors -, a agência tenta incentivar os moradores da cidade a escolherem uma solução mais compartilhada. Como resultado, mais de meio milhão de pessoas – ou seja, praticamente todos os moradores – já experimentaram os passes e foram registrados 100 mil novos clientes nos transportes públicos.

Em um país onde, atualmente, tem como uma das maiores figuras públicas a jovem ativista Greta Thunberg, reduzir as emissões de CO2 tem se tornado parte da cultura local e as pessoas também estão cada vez mais dispostas a agir em prol do meio ambiente. Isso não quer dizer que distribuir alguns passes livres não possa ajudar nesta luta.

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Créditos: Imagem Destaque – Saurav022/Shutterstock; Imagem Eyjafjallajökull – K.Narloch-Liberra/Shutterstock e Imagem Gotemburgo – nrqemi/Shutterstock 

5 de novembro de 2019

POLUIÇÃO DO AR: VULCÕES, O ESTADO DE EMERGÊNCIA EM NOVA DÉLHI E O TRANSPORTE PÚBLICO NA SUÉCIA

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