MEIO AMBIENTE

No texto “Poluição do ar e o que aprendemos com a quarentena”, falamos como a luta contra a pandemia da Covid-19 tem afetado positivamente o volume de poluição do ar. Mas, enquanto as emissões de CO2 diminuem, os resíduos produzidos em áreas urbanas sofrem uma via de mão dupla. Na cidade de São Paulo, por exemplo, a quarentena tem provocado uma queda de 55% no volume de lixo nas ruas na primeira quinzena de abril. Paralelamente, segundo dados da prefeitura, em reportagem do portal G1, o lixo comum (oriundo do serviço de coleta domiciliar, que inclui residências e comércios de pequeno porte — que geram até 200L/dia) teve aumento de 12% e, na coleta seletiva, houve aumento de 25%.

Segundo o G1, “os resíduos recicláveis têm como destino as duas Centrais Mecanizadas de Triagem, que, juntas, possuem capacidade operacional de 500 toneladas de resíduos por dia. Antes da quarentena, as Centrais operavam com metade da produção; com o aumento de recicláveis, operam com cerca de 70% da capacidade.”

No Rio de Janeiro, com o isolamento, a Comlurb, empresa de limpeza urbana da capital fluminense, registrou uma queda de 91% do lixo recolhido nas praias da cidade. De 120 toneladas diárias, o montante reduziu para “apenas‘ 10 toneladas. Mas, assim como na capital paulista, o Rio de Janeiro viu a produção de resíduos migrar para as áreas residenciais. E existe uma oportunidade neste cenário.

Lixo em casa: Uma oportunidade desperdiçada para a coleta seletiva

Com a produção de resíduos concentrada nas residências, existiria uma oportunidade no controle da coleta seletiva, ou seja, poderíamos aumentar a forma como o lixo residencial é coletado e focar na reciclagem. Segundo Cristal Muniz, ativista e autora do blog Uma Vida Sem Lixo (leia mais sobre a iniciativa aqui), em declaração para o site ECOA, “teve uma pessoa que comentou: ‘Aqui aumentou bastante [o lixo residencial], porque meus dois filhos, que passam o dia inteiro fora, agora estão dentro de casa. Só que isso significa que eles reduziram um montão de produção de lixo fora que era invisível. As pessoas estarem trancadas dentro de casa fez com que elas percebessem o quanto de lixo produzem.”

Infelizmente isso não reflete bem a realidade. Mesmo que tenha aumentado a consciência sobre o volume de resíduos que geramos diariamente, as prefeituras não têm dado conta da coleta. Como falei no início do texto, a prefeitura de São Paulo já opera em 70% da capacidade — isso porquê a coleta seletiva também é seletiva na coleta; não são todos os bairros da capital paulista que possuem o serviço de coleta seletiva.

Em Belo Horizonte, segundo o jornal Estado de Minas, por orientação da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) da capital mineira, “a interrupção da coleta seletiva faz parte de uma série de ‘providências urgentes’ tomadas pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), para garantir ‘a proteção da saúde pública’. A orientação do órgão é que o descarte dos resíduos recicláveis seja feito junto com o lixo comum.” Sintetizando o cenário, não adianta a população fazer a separação dos resíduos, pois não há coleta.

No Pacífico, o desafio no gerenciamento de resíduos

No Pacífico, onde as comunidades costumam viver em ilhas remotas com recursos mínimos, ordens para ficar em casa e medidas de distanciamento social também tem impactado o gerenciamento de resíduos, já que a produção de lixo doméstico tem aumentado. Por se tratar de um cenário bem restrito, os municípios coordenam a coleta de resíduos com a ajuda de parceiros locais do setor privado, como empresas de bebidas e engarrafamento. Já as unidades de saúde são responsáveis ​​pela triagem, tratamento e descarte de resíduos médicos; no entanto, muitas têm enfrentando desafios logísticos, financeiros e de capacidade no gerenciamento geral dos resíduos.

Além da Covid-19, a região também possui uma forte incidência de ciclones (em 2019, a Temporada de Ciclones do Pacífico se intensificou a partir do mês de maio). Com o desafio duplo, é deste cenário que podem surgir iniciativas que podem servir como ensinamentos para todos. Veja abaixo uma série de iniciativas que deveríamos adotar:

Aumento da conscientização no descarte do lixo comum e de luvas e máscaras: Apesar de recente, um estudo do The New England Journal of Medicine afirma que o Sars-CoV-2 permanecer viável e infeccioso em superfícies; como papelão, plástico e aço, por mais de 24 horas. Além disso, luvas e máscaras exigem cuidados especiais. Mesmo sendo de material reciclável, elas não devem ser direcionadas para a coleta seletiva e, a orientação de especialistas, é que sejam descartadas com o lixo do banheiro;

Maior atenção das prefeituras: Artigos recentes mencionaram o deslocamento de roedores devido à falta de descarte de alimentos em restaurantes fechados. Um ambiente inseguro e insalubre pode levar a outras doenças em potencial, incluindo aquelas transmitidas por ratos. Por isso, é ideal que as prefeituras aumentem a atenção em relação aos descartes de resíduos. Ao contrário do que temos visto em algumas cidades brasileiras, o ideal é que o serviço de coleta não seja diminuído, mas reorganizado;

Proteção de quem está na linha de frente: Não são só os profissionais de saúde que estão na linha de frente, aqueles que coletam, transportam e gerenciam resíduos também fazem parte deste time. Equipamento de proteção individual (EPI) e higienização regular de veículos são necessários. Se estes trabalhadores ficam doentes, nosso lixo não será recolhido. Este é um serviço essencial.

Reciclar é importante (principalmente agora): Os programas de reciclagem fornecem serviços essenciais e estão correndo o risco de fechar, devido à redução da força de trabalho, preocupações orçamentárias, aumento do medo de doenças e higiene na coleta dos resíduos. Mas é imperativo manter as instalações de reciclagem e coleta de resíduos em funcionamento; isso fará com que o descarte de lixo seja trabalhado e não apareça novas doenças. Vale lembrar que o surgimento do novo coronavírus é reflexo de um problema sanitário. Para entender melhor, sugiro que veja esta série do Netflix.

Imagem Destaque: Shutterstock/My 2 Yen

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