Há pouco mais de dois anos escrevi o texto “Em algum momento a sua privacidade será invadida… e isso é normal”, onde falava sobre a importância dos dados e como eles têm sido utilizados das mais diversas formas. Também comentei sobre o acesso ao sistema de biometria do governo indiano, que poderia ser comprado por meros 500 rúpias, algo em torno de US$ 8. O valor pode parecer absurdo, mas é bem próximo dos US$ 8,44 que, em média, 15.600 voluntários de seis países (Argentina, Alemanha, Brasil, Colômbia, EUA e México) afirmaram estar dispostos a receber para liberar os acessos a seus dados bancários.

Desenvolvido por Jeffrey Prince e Scott Wallsten, do Technology Policy Institute (TPI), um think tank focado na economia da inovação, mudança tecnológica e regulamentação, o estudo “How much is privacy worth around the world and across platforms?” (“Quanto vale a privacidade em todo o mundo e entre plataformas?”, em tradução livre), publicado em janeiro deste ano, traz uma perspectiva interessante sobre a percepção e valor dos dados pessoais e privacidade. Por exemplo, segundo a pesquisa, “as pessoas na Alemanha valorizam mais a privacidade, em comparação com EUA e América Latina.” Mesmo assim, “os entrevistados alemães estão dispostos a compartilhar informações do seu saldo bancário em troca de pagamentos (em média) de US$ 15,43 mensais”.

O estudo também afirma que, “embora as pessoas estejam mais dispostas a compartilhar informações de contato com o Facebook, do que com seu provedor de internet, o valor que a rede social teria que pagar aos usuários pelo direito de compartilhar as informações de contato varia significativamente entre os países.” A Alemanha, novamente, mostra seu forte gosto pela privacidade, seguido pelos EUA em segundo lugar, onde o Facebook precisaria pagar, respectivamente, cerca de US$ 8 e US $ 3,50 por mês. Já em países da América Latina, os valores são geralmente muito mais baixos: variando de US$ 2,30 por mês no México, até US$ 0,52 por mês na Colômbia.”

Apesar do estudo apresentar uma metodologia cuidadosa, mensurar a privacidade é um grande desafio. No entanto, alguns pontos importantes são ressaltados pelo estudo. Segundo ele, “as classificações relativas ao valor da privacidade on-line sugerem que as políticas públicas e privadas devem oferecer proteções de privacidade.” Apesar de não citar diretamente a LGPD (confira nosso podcast sobre o tema abaixo), o estudo mostra que é necessário uma regulamentação para evitar o abuso de dados sensíveis. Dados biométricos, por exemplo, aparecem no estudo com o “preço” de US$ 7,56 mensais. Isso poderia gerar problemas não apenas para os indivíduos, mas também para a segurança de países.

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Nos EUA, população perdeu o controle

Com escândalos como o da Cambridge Analytica, pesquisas da Pew Research Center descobriram ao longo dos anos que as pessoas usam as mídias sociais para interações sociais importantes, como manter contato com amigos e familiares e se reconectar com velhos conhecidos. No entanto, no geral, uma pesquisa de 2014 constatou que 91% dos americanos “concordam” ou “concordam totalmente” que as pessoas perderam o controle sobre como as informações pessoais são coletadas e usadas por todos os tipos de entidades. Cerca de 80% dos usuários de mídia social disseram estar preocupados com anunciantes e empresas acessando os dados que compartilham nas plataformas de mídia social e 64% disseram que o governo deveria fazer mais para regular os anunciantes. Já em 2017, outra pesquisa descobriu que apenas 9% dos usuários de mídia social estavam “muito confiantes” de que as empresas de mídia social protegiam seus dados. Cerca de metade dos usuários não estavam nem “confiantes” de que seus dados estavam em boas mãos.

Por outro lado, a grande maioria dos americanos ainda usam serviços gratuitos, como o Facebook e o Google, com modelos de negócios que giram em torno da coleta e exploração de dados. Curiosamente, a relação dos americanos (e do resto do mundo) com estes serviços seguem sendo algo muito ambíguo. Um estudo publicado em julho de 2019 no Journal of Consumer Policy, mostra que os americanos estariam dispostos a pagar, em média, US$ 5 por mês para excluir todos os seus dados pessoais coletados por empresas.

Seja para receber pelos dados ou pagar para que sejam deletados, a minha percepção é que a nossa privacidade passou a valer muito pouco. Enquanto os usuários aceitam, em média, 8-9 dólares por mês para vender seus dados, as empresas abrem mão por meros US$ 5, a sensação é que os dados que – cada dia mais – têm se tornado moeda virtual, passou a ser uma moeda desvalorizada.

17 de fevereiro de 2020

QUANTO VALE A SUA PRIVACIDADE E OS SEUS DADOS?

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