ESTUDO

Qual o impacto que a economia, a ecologia e as novas tecnologias terão na mobilidade urbana? A pergunta é complexa, mas é uma das quais o estudo Mobility Futures, da Kantar, tenta responder. Apresentado no começo de outubro, o estudo é baseado em mais de 20.000 entrevistas com usuários de diferentes meios de transporte e viajantes frequentes em diversas cidades do mundo, juntamente com entrevistas detalhadas com 53 dos principais especialistas em mobilidade urbana. A pesquisa teve como objetivo ajudar no planejamento e desenvolvimento de transporte urbano e a moldar estratégias de negócios para novos e já existentes players no setor dos transportes e mobilidade em 31 cidades.

Mobilidade no Brasil: São Paulo em penúltimo lugar, segundo a Kantar

A única brasileira no ranking foi São Paulo e o cenário foi preocupante. Enquanto Berlim, líder do ranking, acumlou 90.7 pontos, a capital paulista ficou com apenas 29.7, em penúltimo lugar, a frente apenas de Nairóbi, capital do Quênia. O Mobility Futures também deu origem a outros rankings, com São Paulo se posicionando bem em dois deles. Na lista de cidades com os “Usuários Mais Conscientes” – que mede quantos dos entrevistados usam meios de transporte com taxas baixas de emissão de dióxido de carbono -, a capital paulistana ficou em oitavo lugar.

São Paulo também se posiciona bem no ranking de número de apps usados para mobilidade urbana (que incluem serviços de navegação e mapeamento, planejadores de rotas, provedores de compartilhamento de carros, provedores de compartilhamento de bicicletas, provedores de transporte público local). Cada usuário usa em média 4 aplicativos, deixando a cidade em 8º lugar – o que não é necessariamente um sinal de avanço.

As maiores cidades da América Latina estão atrás do resto do mundo no que diz respeito à mobilidade das cidades. São Paulo e a Cidade do México (25º lugar) estão significativamente abaixo da média na análise da Kantar. Infelizmente, isso se traduz em passageiros muito infelizes – com as duas cidades ficando na parte inferior do índice de “Felicidade dos Usuários” (São Paulo em 28º e Cidade do México em 30º).

A colocação baixa da capital paulista não é algo 100% ruim, isso quer dizer que existe uma boa oportunidade a ser explorada para mudar este cenário. Segundo o estudo da Kantar, “ao permitir um deslocamento conveniente, individualmente otimizado e intermodal na cidade, a Mobilidade como Serviço (MaaS, da sigla em inglês) vai atender aos desejos de 25% dos ‘desertores’ de carros e de transporte público. Não está fora da realidade sugerir que isso poderia, com o tempo, se tornar a forma favorita de se deslocar dentro da cidade.”

Mobility Futures: Outras descobertas da pesquisa

O estudo também reuniu alguns insights interessantes sobre o cenário global. Quando o assunto é mobilidade, o carro ainda é rei. Apesar das crescentes preocupações ambientais, os passageiros ainda amam seus carros por causa do símbolo de status, conveniência ou muitas vezes por necessidade. Globalmente, 39% dos viajantes urbanos dirigem sozinhos para trabalhar – mais do que qualquer outro modo de transporte. E com o transporte público provocando a resposta emocional mais negativa de todos os modos de transporte, não é surpresa que as pessoas estejam optando pela facilidade e conforto de um veículo particular.

No texto “Poluição do ar: Vulcões, o Estado de Emergência em Nova Délhi e o transporte público na Suécia”, mostramos que alguns países estão se movimentando para mudar essa mentalidade do carro. Na cidade de Gotemburgo, um experimento tem transformado mais de 100 mil pessoas em consumidores de transportes públicos, abrindo mão do carro particular por, pelo menos, duas semanas.

Ainda sobre o estudo da Kantar, Amsterdã e Copenhague abrigam os passageiros “super-ciclistas” do mundo, classificados em nº 1 e nº 2 no índice do ciclo, respectivamente. Pequim vem em terceiro lugar. Já os residentes de Tóquio e Manchester são aqueles que mais andam a pé do mundo, com a proporção de passageiros que optam por caminhar para o trabalho atingindo, respectivamente, 18% e 16%.

O Sudeste Asiático também lidera o uso de aplicativos de viagem. Os residentes de Mumbai e Jacarta usam, em média, mais de cinco aplicativos para navegar dentro e fora da cidade. Na China continental, o número médio de aplicativos é menor que o resto do mundo, já que os fornecedores de compartilhamento de carros e bicicletas já se integraram a outros aplicativos mais amplamente utilizados, como o Baidu, para tornar suas ofertas ainda mais acessíveis.

Outro ponto importante que merece atenção, e o estudo traz como um dos destaques, é que todas as cidades são diferentes. Elas são diferentes em relação às suas questões de mobilidade urbana e as soluções que desenvolveram para lidar com elas. Entender essas diferenças ajuda a pensar o futuro e resolver problemas previamente detectados.

“Cidades centradas em pessoas serão o futuro. Só nos resta saber quando. Para remover carros dos centros das cidades, precisamos de um investimento de longo prazo na capacidade do transporte público, uma grande oferta de mobilidade urbana compartilhada e as cidades precisam resolver seus problemas logísticos”, afirma o estudo em um dos insights no Painel de Especialistas Mobility Futures.

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Créditos: Imagem Destaque – Saurav022/Shutterstock

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