Matheus - Luan Comunicação

O que você faria com 500 bilhões de dólares? Na fronteira entre o Egito e a Jordânia, o príncipe saudita Mohammed bin Salman pretende criar uma megacidade com resorts de luxo e com tecnologias de última geração executadas por robôs. Neom é um sonho de Salman que divide opiniões. Até o anúncio do projeto, a região onde será instalada a “cidade do futuro” era relativamente desconhecida e negligenciada. Escolas e eletricidade não chegavam à região, enquanto outras regiões sauditas prosperavam desde o primeiro boom do petróleo na década de 1970. Estradas de terra ainda conectam pequenas aldeias, como Alkhuraybah, vilarejo de pescadores que mal aparece no Google Maps, mas está programado para se tornar parte da “Baía de Neom”, a primeira fase do projeto.

Segundo o próprio projeto, com base em estimativas atuais, mais de 20.000 pessoas serão transferidas da região. “As realocações serão feitas como parte de um processo já estabelecido e que está sendo trabalhado com o Banco Mundial”, afirma a estatal saudita responsável pelo projeto, em entrevista para a Bloomberg. “Os residentes serão recompensados e haverá vários programas sociais em andamento para apoiá-los.” Infelizmente, o histórico de transparência da Arábia Saudita não transmite tanta segurança sobre o impacto social que Neom deve causar (seja ele positivo ou negativo para a região).

Além disso, o histórico do príncipe saudita, que já expulsou parentes, prendeu dissidentes e travou uma guerra com o Iêmen, dificulta a captação de investidores para o projeto. Não que dinheiro seja um problema. Segundo cálculos da Brand Finance, o clã da Casa de Saud (casa real do príncipe) acumula uma fortuna de US$ 1.4 trilhão. Mas o príncipe Salman tem um sonho, isso não quer dizer que vai colocar a mão no próprio bolso para implementá-lo.

Somado a isso, existe a polêmica em torno do assassinato de Jamal Khashoggi, colunista do Washington Post, que fez com que várias figuras proeminentes deixassem o conselho consultivo do projeto. Para completar, o projeto está intimamente ligado ao príncipe e, até que assuma o trono (quando seu pai morrer), não existem certezas sobre o futuro da megacidade. Isso porque, desde 2018, familiares do clã se movimentam para mudar a linha de sucessão e passar o trono para Ahmed bin Abdulaziz, irmão mais novo do rei Salman e tio do príncipe herdeiro.

Para piorar a situação do príncipe, após os ataques à infraestrutura de petróleo do país no último mês de setembro, membros da família real saudita subiram o tom das críticas ao príncipe herdeiro e sua capacidade de defender e liderar o maior exportador de petróleo do mundo.

E se tudo certo? Neom, a Arábia Saudita 2.0

Em entrevista para a Bloomberg, o príncipe disse que Neom deve ficar pronta até 2030 e que ela faz parte da transição para a “Arábia Saudita 2.0”, um plano para preparar a economia do reino para a escassez do petróleo no Oriente Médio. Ou seja, Mohammed bin Salman sabe que o combustível fóssil não é eterno e Neom é muito mais que um sonho, mas uma oportunidade para manter a riqueza do clã. Segundo Salman, a região contribuirá com US$ 100 bilhões para a produção econômica do país.

A aposta é grande, pois a região é realmente promissora em todos os sentidos. Ventos vindo do Mar Vermelho e uma localização geográfica única fazem com que a temperatura média da região seja 10ºC menor do que o restante do Golfo Pérsico, criando um clima temperado para região. Os mesmos ventos e a incidência de sol podem gerar, em média, 5 kwh/m².

Quando o assunto é transporte, cerca de 10% de todo comércio marítimo mundial flui através do Mar Vermelho e Neom possuirá 450 km de costa. Além disso, 70% do planeta viveria a menos de 8 horas de viagem de avião para Neom. Isso sem contar que a região é 35 vezes maior do que a maior ilha de Cingapura, ou seja, há espaço para diversos tipos de construções.

Incluindo os pontos citados anteriormente, o projeto reúne 16 pilares para a lucratividade, pioneirismo e impacto da região:

  1. Energia – baseada em matrizes limpas;
  2. Água – projetos de dessalinização;
  3. Mobilidade – conexões com Ásia e África;
  4. Biotecnologia – a região tem como objetivo tornar-se um pólo de terapias genéticas;
  5. Comida – desenvolvimento de técnicas de agricultura em regiões áridas e fazendas urbanas verticais;
  6. Manufatura – um dos objetivos do projeto é a construção de uma cidade industrial;
  7. Mídia – o projeto pretende tornar Neom em uma espécie de Hollywood do Oriente Médio;
  8. Entretenimento, cultura e moda – Restaurantes renomados, resorts, shoppings e outras experiências são o foco do projeto;
  9. Tecnologia – Pólo de IoT e uma megacidade inteligente é um dos grandes objetivos;
  10. Turismo – Vários pilares se unem para tornar Neom um dos grandes destinos do turismo mundial;
  11. Esportes – O projeto busca reunir eventos esportivos;
  12. Design e Arquitetura – Unindo tecnologia de impressão 3D e sistemas robóticos, o objetivo é reduzir tempo e custo das construções e virar uma referência mundial no setor;
  13. Serviços – Escritórios, bancos e serviços públicos. Objetivo é oferecer os mais diversos serviços para residentes e visitantes;
  14. Saúde e Bem Estar –  O objetivo é criar um local de tratamento e prevenção de doenças;
  15. Educação – Educação de ponta do jardim de infância até a universidade;
  16. Habitabilidade – Tornar-se uma sociedade aspiracional com foco no futuro da civilização humana.

Dito tudo isso, o que podemos concluir é que Neom é um verdadeiro vislumbre da cidade do futuro. Muito mais do que isso, é um sonho de uma Arábia Saudita bem longe da realidade atual. Com elementos que permitem construir a sociedade do futuro, é um sonho utópico que, por mais que já tenha saído do papel (a primeira fase do projeto já está em andamento e os pequenos vilarejos da região têm visto uma “invasão” de operários), não acredito que consiga ser concluída.

Para que consiga ser efetivamente construída, a megacidade terá que superar muito mais do que um investimento bilionário. Terá que superar uma monarquia absolutista que olha para o futuro, mas segue flertando com os pensamentos obscuros de um passado/presente onde apenas uma minoria detém o poder de mudar os rumos de uma sociedade ancestral.

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